A dimensão transpessoal da profissão docente é central!

por Anselmo Lima

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A esta altura deve ter ficado claro que um programa de formação docente continuada que de fato contribua tanto para a constituição e o desenvolvimento de um coletivo de professores quanto para o crescimento profissional e a promoção da saúde docente precisa se voltar centralmente para o cultivo da dimensão transpessoal da profissão, isto é, deve ter sua base no desenvolvimento dos gêneros de atividade docente ou, em outras palavras, no desenvolvimento de formas relativamente estáveis de ações didático-pedagógicas na escola. Tendo isso em vista, é preciso ter maior clareza do que essas formas vêm a ser para que se possa propor – na prática – um programa de formação docente continuada que as leve na devida conta.

Ao ser realizada, a atividade de ensino-aprendizagem estabelece entre o educador e os demais sujeitos a quem ela se dirige determinadas relações de intercâmbio ou de troca como, por exemplo: 1) a relação professor-aluno, na qual o professor ensina aos alunos determinados conteúdos para que eles tenham condições de realizar a contento certas tarefas que serão, em seguida, objeto de avaliação na escola e na vida; 2) a relação professor-professor, na qual o professor de determinada disciplina ensina aos alunos certos conteúdos para que eles tenham condições de mobilizá-los em outras disciplinas, ministradas por outros professores ou por ele mesmo; e 3) a relação professor-família, na qual o professor – especialmente na educação infantil, mas não só – solicita que as famílias ou responsáveis acompanhem e auxiliem os alunos na realização de deveres de casa, com o objetivo de consolidar o conhecimento de determinados conteúdos mais difíceis.

Nessas relações de intercâmbio, toda atividade docente se materializa estilisticamente na forma de gestos profissionais e possui significado ou sentido funcional, isto é, possui determinada funcionalidade adaptada a determinado contexto de trabalho e auxilia o professor na concretização de suas intenções didático-pedagógicas. Por exemplo, o gesto profissional docente de passar uma lição no quadro e de apagá-la com determinado ritmo pode servir para que o professor imponha aos alunos certa velocidade na “cópia” ou anotação da lição em seus cadernos. Assim, o gênero de atividade docente se caracteriza por quatro aspectos indissolúveis: 1) relações de intercâmbio ou de troca; 2) construção composicional baseada em gestos profissionais; 3) significado ou sentido funcional dos gestos profissionais; e 4) estilo do professor.

Quais seriam algumas das relações de intercâmbio ou de troca nas quais você se engaja em seu dia a dia de trabalho nas escolas, professor? Quais gestos profissionais você realiza em sala de aula ou fora dela? Quais seriam as funções desses gestos? De que forma sua prática de ensino se diferenciaria da prática de seus colegas, isto é, qual é o seu estilo de professor? Pensar nessas questões é um dos caminhos para nos reconhecermos (e sermos reconhecidos!) em nossa profissão.