Realização e desrealização no trabalho: efeitos sobre a saúde e o bem-estar do professor

por Anselmo Lima

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Frequentemente, a aula que se realiza não é a aula planejada e, ao final de um dia de trabalho, é comum que o professor vá para casa muitas vezes esgotado por conta disso. É que o universo de tudo aquilo que ele gostaria de executar sem conseguir constitui-se como energia psíquica acumulada ou, em outras palavras, como energia de realização de atividades docentes que não encontra vazão e acaba por sobrecarregá-lo e desgastá-lo. Se o acúmulo constante desse tipo de energia não encontrar em algum momento uma vazão na forma de realização do até então irrealizável ou de alguma outra forma, o professor inevitavelmente adoecerá, ao que não raro se seguirá seu afastamento do trabalho. Não surpreende que esse tipo de esgotamento docente (também conhecido como burnout) seja ao final do expediente apenas o primeiro sintoma desse processo de adoecimento!

Também não é difícil perceber que o fenômeno da inconsciência ou, em outras palavras, do subdesenvolvimento do contato social do professor consigo mesmo está relacionado ao já mencionado problema da repetição ao idêntico, o qual diz respeito à repetição de gestos profissionais sem recriação, de forma desengajada. Mas o fato de o professor estar muitas vezes desengajado não significa necessariamente que ele não tem ou não terá energia de trabalho. Ao contrário! O desengajamento docente pode funcionar como um indicador preciso de que o professor está cheio de energia para investir no trabalho, mas é impedido de fazê-lo. E isso – longe de realizá-lo – o desrealiza no exercício da profissão, prejudicando sua saúde e seu bem-estar.

Professor, você percebe suas possibilidades profissionais não realizadas? O trabalho de ensino-aprendizagem que você realiza é o trabalho que você realmente gostaria de realizar? Sente-se desengajado em sala de aula e fora dela? Sente-se esgotado ao final de um dia de trabalho, mas não necessariamente porque se cansou, mas porque não pôde fazer o que gostaria de ter feito? Percebe alguma relação entre esse desengajamento/esgotamento e o fato de ser impedido de realizar seu trabalho do jeito que gostaria ou poderia? Se está em dificuldades nessas áreas, não há dúvidas de que um programa de formação docente continuada que se preocupe também com a promoção de sua saúde poderia e deveria ajudá-lo antes de você ter de recorrer a um hospital e/ou a um afastamento do trabalho.