Formar duplas de professores voluntários no interior do coletivo de trabalho docente

por Anselmo Lima

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Depois de levar a sério a demanda dos professores, sem trapacear com a realidade da educação, e de constituir um coletivo de trabalho docente a partir de determinadas estruturas educacionais com o objetivo de partir coletivamente para o enfrentamento do trabalho concreto de sala de aula, o quarto passo na implementação de uma Clínica da Atividade Docente nas escolas, por meio do método da Autoconfrontação Simples e Cruzada, é formar duplas de professores voluntários para a filmagem de aulas no interior do coletivo recentemente constituído.

O entendimento é que a unidade mínima inicial de um coletivo de trabalho corresponde a pelo menos dois profissionais que se proponham a atuar colaborativamente para juntos superar obstáculos e dificuldades que sozinhos ou isolados não conseguiriam superar. Daí a importância de que, nas escolas, os professores saiam da solidão e do isolamento, cada um aproximando-se de um colega e convidando-o para assistir a uma ou a algumas de suas aulas como forma de iniciar uma troca de experiências, ainda que informal e inicialmente pouco estruturada. Foi o que discuti no post sobre o que caberia aos professores quando o assunto é a promoção de sua formação continuada e de sua saúde. No quadro de uma Clínica da Atividade Docente que começa a ser implementada nas escolas por meio do método da autoconfrontação, seria desejável que – de alguma forma – já houvesse esse tipo de prática entre os professores, que então teriam maior facilidade e se sentiriam mais à vontade no momento de se voluntariar para compor duplas de docentes que terão suas aulas filmadas e que trabalharão juntos em sua análise e problematização.

Dois conceitos teóricos já abordados em posts anteriores são aqui fundamentais para compreender a importância da formação de duplas de professores no seio do coletivo de trabalho: consciência profissional e gêneros de atividade docente: tenho consciência profissional de mim mesmo e do trabalho que faço na medida em que aprendo a ser um outro para mim mesmo, isto é, na medida em que aprendo a olhar para mim mesmo com os olhos do outro a quem se dirige meu trabalho. Mas essa aprendizagem é impossível sem o outro, sem meu colega de trabalho. Na realidade, sem ele o que me resta mesmo é adoecer, pois sua inexistência, afastamento ou indisponibilidade para mim lança-me numa repetição ao idêntico que me desrealiza e faz com que se degenere o gênero de atividade docente no qual me inscrevo, isto é, faz com que se atrofiem e desapareçam as formas relativamente estáveis de se fazer as coisas coletivamente, não me sendo mais possível então que eu seja reconhecido e me reconheça numa história, num meio de vida e numa categoria profissional que não são apenas meus, mas também de meus colegas de trabalho.

O que se busca com uma Clínica da Atividade Docente é que a saudável dinâmica de colaboração que pode ser praticada entre dois professores se estenda a toda uma coleção de indivíduos que acabou de ser constituída como coletivo de trabalho e contribua, assim, para seu efetivo desenvolvimento como coletivo de trabalho. Professor, é possível contar com você nessa iniciativa? Gestor, é possível contar com você nesse tipo de apoio aos professores? O que está em jogo é não só a formação continuada e a saúde de nossos professores, mas a própria qualidade de nossa educação. Em meu próximo post falarei pela primeira vez sobre o que caberia aos alunos e a seus pais ou reponsáveis, no caso de alunos menores de idade.