Observar e registrar aulas por escrito: a postura do Coordenador Pedagógico em discussão

por Anselmo Lima

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Com raras exceções, quando um Coordenador Pedagógico vai à sala de aula de um professor para observá-lo, sua postura é, por tradição, normalmente a do especialista externo na atividade docente. Isso porque, no paradigma educacional estabelecido, é formado para ser avaliador e, assim, procura constatar se a prática de ensino do professor observado é “boa” ou “correta” e, ao mesmo tempo, busca identificar os “erros” e “pontos fracos” da aula do docente com o objetivo de posteriormente lhe dar orientações de melhoria: “isto que você faz é certo, bom e deve continuar”, “aquilo que você faz é errado, ruim e deve ser evitado”, “aquilo outro que você faz deveria ser feito de modo diferente”, etc.

Entretanto, no quinto passo de implementação de uma Clínica da Atividade Docente nas escolas, não é essa a postura de um Coordenador Pedagógico. Tendo o claro entendimento de que nenhuma prática didático-pedagógica em sala de aula é em si e por si mesma “certa”, “boa”, “errada” ou “ruim”, no âmbito de uma Clínica da Atividade Docente, o Coordenador Pedagógico, como Clínico-Formador ou, se preferir, como Formador-Clínico, ao observar uma ou duas aulas de determinado professor, busca registrar detalhadamente, de forma tão neutra e objetiva quanto possível, aquilo que se passa de cinco em cinco minutos na interação professor-aluno em sala de aula.

Isso não significa que o Coordenador Pedagógico abre mão de seu ponto de vista especializado e qualificado sobre as aulas observadas! Significa antes que respeita e legitima o professor como o verdadeiro especialista em sua própria atividade, inclusive submetendo seu próprio ponto de vista à apreciação do professor observado. Aqui, mais do que conceber e impor ao professor seus juízos de valor sobre a aula observada, o Coordenador Pedagógico está interessado em que o próprio professor conceba seus próprios juízos de valor e reflita a respeito daquilo que faz, como especialista que é.

A própria atividade de observar e registrar detalhadamente por escrito as aulas de um professor contribui para que isso aconteça. É que, ao ser observado, o professor se observa! Isto é, no processo de ser observado, o professor se coloca ou se projeta na posição de seu observador e, desse lugar, começa a se ver a si mesmo e a se questionar a partir de possíveis pontos de vista do outro: o que é que meu observador está vendo? Será que ele vê o que eu estou vendo? O que ele está pensando a respeito do que está vendo? Será que ele pensa o mesmo que eu estou pensando? Esse movimento subjetivo realizado pelo professor com a ajuda da presença do Coordenador Pedagógico prepara o caminho para o sexto passo na implementação de uma Clínica da Atividade Docente nas escolas: auxiliar os professores de cada dupla voluntária na análise e na problematização das aulas observadas e registradas por escrito.

Fica claro então que, no âmbito de uma Clínica da Atividade Docente, a postura do Coordenador Pedagógico está muito longe de ser a do especialista externo na atividade do professor. É antes a postura de um profissional altamente qualificado, que sabe auxiliar os professores a se desenvolverem e a se legitimarem como os verdadeiros especialistas naquilo que fazem.

Professor, qual tem sido a postura de seu Coordenador Pedagógico para com você? Coordenador Pedagógico, qual tem sido sua postura para com o professor?