CLÍNICA DA ATIVIDADE DOCENTE

Como cuidar da formação continuada e da saúde do professor nas escolas: introdução, teoria, prática e exemplo

Categoria: INTRODUÇÃO

Falar-e-fazer, fazer-e-falar para a promoção da formação continuada e da saúde do professor

fazer falar teoria prática

O docente, ao agir, tem a necessidade vital de simultaneamente falar sobre a prática concreta realizada (ainda que seja consigo mesmo, no plano de seu discurso interior) e de realizar concretamente a prática falada. Quando o assunto é a prática de ensino e seu aprimoramento, não pode haver um “falar sobre” sem um efetivo “fazer” e, do mesmo modo, não pode haver um “fazer” sem um efetivo “falar sobre”. Em outras palavras, há uma dialética vital entre fazer e falar ou – o que dá no mesmo – entre prática e teoria ou, como diria Vygotsky, entre conceitos espontâneos e científicos. Essa dialética, quando cultivada adequadamente, se torna promotora tanto da formação continuada quanto da saúde do professor. Trata-se de um movimento transformador contínuo de uma atividade (o falar dos professores) sobre outra atividade (o fazer docente).

A ausência do cultivo da dialética do falar-e-fazer e do fazer-e-falar resulta inevitavelmente, como é o caso em muitas iniciativas tradicionais de “formação docente continuada”, no ciclo vicioso de um falar sem um fazer (no caso dos “figurões”) e de um fazer cujo falar não é reconhecido nem incentivado (no caso dos professores). Desse ciclo vicioso, só pode resultar – como tenho testemunhado – o adoecimento docente no trabalho e a impossibilidade de uma verdadeira e genuína formação continuada do professor. É, sem dúvidas, o momento de romper com esse ciclo vicioso e de, em seu lugar, instaurar e institucionalizar o ciclo virtuoso do falar-fazer-falar… Está mais do que na hora de garantir efetivamente aos professores o direito de juntos, como diz Paulo Freire em sua Pedagogia da Autonomia, “pensarem criticamente a prática de hoje ou de ontem” para “melhorar a próxima prática”. Mas isso de modo que “o próprio discurso teórico, necessário à reflexão crítica” seja “de tal modo concreto que quase se confunda com a prática”.

Nessa perspectiva, “falar” é (re)pensar criticamente a docência e “fazer” é transformar constantemente a prática de ensino concreta em sala de aula por meio desse “falar”. Apoiar os professores nessa empreitada, considerando-os como especialistas autônomos em sua própria atividade, é o verdadeiro papel tanto dos gestores quanto dos especialistas em formação docente, seja inicial ou continuada. Mostrar como isso é possível de uma forma inovadora e que respeite o professor é um dos objetivos deste Blog, cujos posts estarão de agora em diante organizados em três categorias: 1) teoria; 2) prática; e 3) exemplo.

Professor, como tem se dado a relação do falar com o fazer e do fazer com o falar nas iniciativas de formação docente continuada de sua escola? Quais têm sido os resultados? Convido você a compartilhar suas experiências deixando um comentário para este post.

Seriam então totalmente inúteis as tradicionais iniciativas de formação docente continuada?

pergunta questão

Do estado de coisas descrito e discutido no post anterior decorre que o professor é injustamente visto como um não-especialista em sua própria atividade, apesar de executá-la todos os dias. Assim, na ocasião de uma dessas iniciativas de “formação docente continuada”, resta-lhe apenas supostamente “aprender” com um “verdadeiro especialista externo” em sua atividade, apesar de este muitas vezes não executá-la (ou nunca tê-la executado!). Decorre também que a vida da sala de aula permanece sem uma abordagem concreta e satisfatória ao longo do processo de formação continuada do professor. Decorre, além disso, que – longe de promover e cuidar – semelhantes ocasiões de “formação docente continuada” acabam por contribuir para, junto com o estresse do dia a dia docente, prejudicar ainda mais a saúde e o bem-estar do professor por meio de mais frustrações e insatisfações.

Neste ponto é preciso deixar bem claro o que não quero e o que quero dizer com tudo isso. Por um lado, não quero dizer que os tradicionais programas, cursos ou “momentos” e “períodos” de formação docente continuada sejam totalmente inúteis, pois eles podem talvez até ter algum valor e – ainda que raras – podem talvez até dar alguma contribuição para a melhoria da prática docente, mesmo que insuficiente. Por outro lado, o que quero sim dizer é que, em iniciativas de formação docente continuada, é preciso vincular todos os discursos sobre a docência a práticas docentes reais e concretas a eles correspondentes, em especial quando se trata da prática de ensino em sala de aula. O que quero também dizer é que é mais do que tempo de conferir a cada professor o estatuto de especialista em sua própria atividade, pois é ele quem a executa em seu dia a dia. Ninguém melhor a conhece se não ele mesmo, ainda que enfrente diversas dificuldades, que muitas vezes podem até parecer insuperáveis. Ninguém melhor e com mais propriedade poderia “falar sobre” e, com isso, transformar sua própria prática de ensino se não o próprio professor.

Assim, o que este Blog propõe é uma mudança de paradigma quando o assunto é a formação continuada do professor. Como ficará claro na sequência de posts, o atual paradigma estranhamente se caracteriza por um falar sobre a atividade docente sem a atividade docente; em outras palavras, a característica principal do atual paradigma de formação docente continuada é a de uma teoria manifestamente sem prática (do lado dos ilegitimamente denominados “especialistas”, os “figurões”) e a de uma prática supostamente sem teoria (do lado dos ilegítima e injustamente considerados “não-especialistas”, os próprios professores!).

Professor, o que você acha das tradicionais iniciativas de formação docente continuada de sua escola? Elas de fato o ajudam a resolver e superar os problemas e dificuldades que você enfrenta em sua sala de aula? Deixe um comentário.

Como ocorrem nas escolas as tradicionais iniciativas de formação docente continuada e qual é o resultado

speakers-414560_640

Tradicionalmente, nas instituições de ensino, programas, cursos ou “momentos” e “períodos” de formação docente continuada baseiam-se na leitura de textos teóricos, na participação em oficinas e, principalmente, na presença dos professores a palestras. Entretanto, não se tem notícia de que alguma dessas iniciativas tenha tido foco e tenha abordado, de modo concreto e simultâneo, tanto a prática de ensino em sala de aula quanto suas relações com a saúde do professor.

Em sua quase totalidade, essas iniciativas institucionalizadas de “formação docente continuada” são momentaneamente ministradas pelos chamados “especialistas” na atividade do professor, havendo nelas o predomínio do “falar sobre” uma atividade docente idealizada e, portanto, sem dúvidas inexistente. Em seu discurso, os chamados “figurões” ou “grandes nomes da educação” frequentemente apontam o que consideram ser os “erros” dos professores, indicando em seguida o que os docentes deveriam “na verdade” fazer para “acertar”, “mas não fazem ou teimam em não fazer”. Esse “falar sobre” frequentemente assume as seguintes formas: “o professor não sabe isso e/ou aquilo”, “o professor não está preparado para isso e/ou aquilo”, “o professor não consegue isso e/ou aquilo” e, complementarmente, “o professor deveria isso e/ou aquilo”, etc.

É justificada e bem conhecida a reação de muitos professores diante de semelhante discurso, o qual são muitas vezes obrigados a ouvir sentados e calados por várias horas (e ao longo de vários dias!) quando participam de alguma “semana” ou “mês de planejamento”. Após cutucar o colega que igualmente sofre à sua direita ou à sua esquerda, cochicha, dentre outras coisas: “eu queria era ver o figurão aí da frente fazer lá em minha sala de aula da quinta série o que ele está dizendo!”. E não é raro que, depois disso, o professor volte para sua sala de aula frustrado, sem nada ou quase nada levar consigo em termos de contribuição efetiva para o avanço de suas ações profissionais ou para a resolução de alguns de seus problemas cotidianos. Não é de surpreender, além disso, que a repetição dessa situação várias vezes, semestre após semestre e ano após ano, acabe por contribuir para prejudicar a saúde do professor após adicionar mais insatisfações a sua já tão difícil rotina de trabalho.

Professor, como tem sido a formação docente continuada em sua escola? Ela tem abordado seus problemas e dificuldades concretos de sala de aula e ajudado você efetivamente a superá-los? Ela tem se preocupado de verdade também com sua saúde? Compartilhe suas experiências deixando um comentário para este post.

BLOG – Clínica da Atividade Docente

blog formação continuada saúde professor anselmo lima 2

O objetivo geral deste Blog é mostrar, numa sequência de vários posts, como promover simultaneamente a formação continuada e a saúde do professor em instituições de ensino. Três são seus objetivos específicos: 1) relacionar questões de formação continuada com questões de saúde docente; 2) apresentar e discutir um programa de formação continuada do professor que, além de garantir o desenvolvimento da prática de ensino, promove e preserva ao mesmo tempo a saúde do educador no trabalho; e 3) descrever e analisar um exemplo bem-sucedido de implementação desse programa em uma instituição pública federal de ensino.

O foco central do Blog recai sobre a prática docente concreta em sala de aula. Há três razões para isso: 1) é principalmente na sala de aula que o docente encontra e interage com os alunos na realização do trabalho de ensino-aprendizagem; 2) é na sala de aula que o professor passa a maior parte de seu tempo de trabalho, dela decorrendo todas as demais atividades docentes; e 3) apesar de sua centralidade no exercício da profissão docente, é surpreendentemente a prática concreta de sala de aula o aspecto mais negligenciado da formação do professor, seja ela inicial ou continuada.

De um lado, no que diz respeito ao exercício da profissão, é incontornável a necessidade de continuação da formação do professor após sua passagem por universidades, faculdades e outras instituições de formação inicial. De outro lado, numa época em que tanto se ouve falar de professores que se afastam do trabalho por conta – por exemplo – de estresse ou do chamado “burnout”, é também premente a necessidade de promover e cuidar da saúde do professor no trabalho. Nesse sentido, a proposta teórica e prática deste Blog é que se façam as duas coisas ao mesmo tempo, uma vez que – como será demonstrado e discutido na sequência dos posts – uma adequada formação continuada do professor deve promover (e de fato promove!) também sua saúde.

%d blogueiros gostam disto: