CLÍNICA DA ATIVIDADE DOCENTE

Como cuidar da formação continuada e da saúde do professor nas escolas: introdução, teoria, prática e exemplo

Categoria: Teoria

Saúde física e mental do professor: cuidado com gestos docentes insustentáveis!

Clínica da Atividade Docente saúde do professor

É possível resumir da seguinte forma o problema discutido na sequência de posts anteriores (clique aqui para acessá-los): 1) sentado, o professor que usa computador em suas aulas digita com facilidade e conforto e, assim, preserva sua saúde física, mas perde um contato mais próximo com os alunos, que – até certo ponto entregues a si mesmos – se perdem na indisciplina; 2) em pé ou inclinado, o professor digita com dificuldade e desconforto e, assim, prejudica sua saúde física, mas ganha um contato mais próximo com os alunos, que – acompanhados mais de perto pelo professor – tendem a se manter na disciplina.

É possível perceber com isso a que ponto os docentes se esforçam para incorporar a si a própria mesa e o computador do professor, buscando fazer com que seus próprios corpos, em uma unidade com esses artefatos, se constituam como instrumentos semióticos híbridos de ação educativa sobre os alunos. O Professor “A”, buscando preservar sua saúde física, permanece sentado para digitar, perdendo relativamente o contato com seus alunos, que – por sua vez – se perdem em relativa indisciplina, o que pode lhe trazer frustrações que – a curto, médio ou longo prazo – poderão prejudicar até mesmo sua saúde mental. Já o Professor “B”, buscando acima de tudo resguardar possíveis resultados educacionais, ao inclinar-se para digitar, acaba por – de certa forma – comprometer sua saúde física, ainda que mantenha total contato com seus alunos e, com isso, resguarde sua saúde mental ao evitar problemas com indisciplina. Com base nessas considerações, podemos afirmar que se trata de dois gestos profissionais docentes insustentáveis. Verificamos, com isso, a que ponto a sustentabilidade de gestos profissionais, bem como a manutenção da saúde individual e coletiva no trabalho, depende justamente da possibilidade de o sujeito trabalhador constantemente se repetir com recriação.

Meu próximo passo será mostrar os videodocumentários que resultaram dessa problematização de gestos profissionais docentes com os Professores “A” e “B”. Aguarde!

Dar aula em pé ou sentado? O dilema do professor que usa computador em suas aulas

clínica da atividade

De um lado, para o professor de informática, nas condições em que desenvolve seu trabalho pedagógico, digitar inclinado para conseguir dar aula quando a quantidade de código a ser digitada é baixa permite que o docente não perca o contato com os alunos por não estar totalmente isolado atrás da tela de seu computador, sentando-se e levantando-se alternadamente apenas quando é grande a quantidade de código a ser digitada. Esse gesto profissional docente permite amenizar o problema da perda de contato com os alunos durante o processo de digitação. Há, portanto, nesse caso, ganho para o professor e seus alunos em termos de ensino-aprendizagem, mas perda para o professor em termos dos impactos que podem ser causados a sua saúde, ainda que a longo prazo. Vale, nesse caso, lembrar as palavras do Professor “B”: “ficar três aulas inclinado sobre o computador, quatro ou cinco vezes por semana, [só pode trazer sérias consequências para sua saúde física]”.

De outro lado, digitar sentado para dar aula evita problemas que poderiam ser causados à saúde do professor, mas produz relativa perda de contato entre o professor e os alunos durante as aulas, uma vez que o professor se encontra praticamente isolado atrás da tela de seu computador, o que leva os alunos a ficarem “perdidos” e a se dispersarem, tornando-se mais ou menos “indisciplinados” e apresentando problemas de ensino-aprendizagem devidos à impossibilidade de acompanhar de forma mais proveitosa as explicações do professor. Nesse caso, há ganho para o professor, que consegue preservar sua saúde, mas perda para o professor e seus alunos em termos de ensino-aprendizagem, uma vez que estes últimos não conseguem acompanhar as aulas com maior proveito. Vale, neste outro caso, lembrar as palavras do Professor “A”: “quem acaba prejudicado também é o aluno”.

No próximo post explicarei a razão de esses dois gestos profissionais serem insustentáveis para os professores.

Diálogos em autoconfrontação cruzada: dar aulas digitando em pé, inclinado ou sentado?

clínica da atividade docente em pé inclinado sentado

Do processo de reflexão mencionado no post anterior, destaco o seguinte trecho de diálogo entre o Professor “A” e o Professor “B”:

PB:        o problema que eu falo de digitar inclinado né… você não vai ficar três aulas

PA:        não

PB:        digitando inclinado né… vamos concordar que ficar três aulas inclinado sobre o computador… quatro ou cinco vezes por semana ((risos))…

PA:        não… e outra coisa… eu percebo assim… é porque… não é uma posição confortável para o professor… então… a gente não tem aquela fluência para digitar…

PB:        você não tem o apoio… você não tem nada

PA:       é… o apoio… o mouse do lado… e coisa… e ficar inclinado eu acredito… na minha opinião… é a pior situação… ou digita sentado… assim… para o professor conseguir… ou sentado… ou se tivesse um esquema de pé… inclinado… sei lá… o professor é assim ó… você tá em uma posição que não é agradável para ti… então de repente você vai querer terminar rápido… digitar rapidinho para voltar e sentar torto ou de pé e tal e… quem acaba prejudicado também é o aluno

Observa-se que os docentes entram em relativa controvérsia, engajando-se em processos argumentativos com o objetivo de defender seus posicionamentos e práticas pedagógicas iniciais. O Professor “A” vinha apresentando seu ponto de vista em relação ao gesto de digitar inclinado quando o Professor “B” se manifesta argumentando contra essa possibilidade: “o problema que eu falo de digitar inclinado” é que “você não vai ficar três aulas digitando inclinado” e “vamos concordar que ficar três aulas inclinado sobre o computador… quatro ou cinco vezes por semana ((risos))… [só pode trazer sérias consequências para sua saúde física]”.

Diferentemente do riso inicial do Professor “A”, que manifestou dessa forma sua descrença em possíveis investimentos na melhoria imediata de suas condições de trabalho pedagógico, o riso do Professor “B” parece indicar um processo no qual trata com humor a disposição de seu colega para digitar inclinado, mesmo que isso signifique prejuízos para a saúde física. O Professor “A”, por sua vez, querendo demonstrar que não está excessivamente apegado a seu ponto de vista inicial, concorda com o colega: “não é uma posição confortável para o professor” e nela “a gente não tem aquela fluência para digitar”. Então começa a considerar outras possibilidades, sem delas se convencer, como se oscilasse em seu discurso entre duas possibilidades contraditórias, não conseguindo resolver o conflito entre elas existente: “ficar inclinado eu acredito… na minha opinião é a pior situação”, “ou digita sentado… assim… para o professor conseguir… [digitar]”, “ou se tivesse um esquema de pé… inclinado… sei lá…”.

Finalmente, esteja o professor em pé, inclinado ou sentado, o Professor “A” – com a concordância de seu colega – afirma que o docente se encontra “em uma posição que não é agradável” e “de repente […] vai querer terminar rápido… digitar rapidinho para voltar e sentar torto ou de pé e tal”. Afirma, ainda, sempre mediante a concordância de seu colega, que, no fim das contas, além do professor, “quem acaba prejudicado também é o aluno”.

Como interpretar o diálogo dos professores apresentado nos últimos cinco posts (ver a sequência um, dois, três, quatro e cinco)? É o que procurarei mostrar em breve.

Autoconfrontação Simples: o professor “A” observa, descreve e explica um trecho de suas aulas

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Em um primeiro momento da sessão de Autoconfrontação Simples, um dos docentes da dupla de professores do Departamento de Informática, que aqui denominarei provisoriamente professor “A” (PA), observa, descreve e explica um trecho de suas aulas em minha presença e na presença da Pedagoga Doutoranda Dalvane Althaus. A seguir, é possível observar duas imagens representativas desse trecho de aula e parte do comentário do professor sobre elas:

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IMAGEM 1: O PROFESSOR “A” DIGITA INCLINADO

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IMAGEM 2: O PROFESSOR “A” APONTA NA TELA

A:      aqui eu tô digitando… como pode ver… é… na minha opinião tem um problema com os laboratórios de informática… todos… porque a mesa onde fica o computador do professor é baixa… ou seja… para mim… quando eu tenho que falar uma grande… quando eu tenho que digitar uma grande quantidade de código… eu tenho que sentar… então eu fico… assim… eu não consigo ver a turma… fico… na frente do computador… solução para isso… cara… hahn ((risos))… seria comprar bancadas para o professor colocar o notebook… e ficar de pé… digitando… seria uma solução pra aula de informática… pra você não… porque enquanto… aqui ainda eu tô digitando pouco então tô meio… não… não tô sentado…

EU:      tá inclinado?

PA:      inclinado… mas… quando se tem que digitar uma grande quantidade… não tem escapatória… você tem que sentar ali… e digitar

Em meu próximo post apresentarei uma análise clínica desse processo de observação, descrição e explicação.

Como se deu o trabalho de filmagem de aulas?

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Tendo atuado com os professores na análise e problematização das aulas até então apenas observadas e registradas por escrito, o oitavo passo de implementação da Clínica da Atividade Docente na UTFPR-PB foi o de filmagem propriamente dita da atividade de ensino-aprendizagem realizada por meio da interação dos professores com seus alunos. A câmera foi, como é recomendável, posicionada sobre um tripé no canto esquerdo do fundo da sala, de modo que foi possível registrar os alunos de costas (e lateralmente) e gravar os professores de frente, em sua movimentação ao interagir com os alunos. Com esse posicionamento da câmera, como as aulas e as gravações se deram no Laboratório de Informática, foi possível registrar também as telas dos computadores dos alunos, as quais – em relação à localização dos professores, que ficam à frente – se constituem como “pontos cegos” para os docentes.

A montagem do equipamento de filmagem no local teve início aproximadamente 15 minutos antes do início das aulas. Conforme os alunos iam chegando e entrando na sala, inevitavelmente notavam a aparelhagem e demonstravam interesse e curiosidade. Por vezes, conversavam e faziam breves observações bem-humoradas sobre como seria para eles e para os professores a experiência de serem filmados. O fato foi que, como já era de se esperar e como – na perspectiva da Clínica da Atividade Docente – é desejável, os alunos “mudaram” seu comportamento: pareciam mais quietos e demonstravam prestar mais atenção e se concentrar mais nas aulas. Essa “mudança” de comportamento, entretanto, não impediu que se notasse uma vez mais, na aula de um dos professores da dupla, a relativa e ligeira “indisciplina” ou “dispersão” de alguns dos alunos, a qual – como comentei no post anterior – se materializa na forma de algo como certa agitação e/ou movimentação discente.

Esses aspectos, bem documentados pelas filmagens, serão abordados detalhada e profundamente em meus próximos posts, os quais – no nono passo de implementação da Clínica da Atividade Docente na UTFPR-PB, serão dedicados justamente à análise e problematização com e pelos professores de trechos de aula em situação de Autoconfrontação Simples e Cruzada.

Como ocorreu a análise e problematização das aulas observadas e registradas por escrito?

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Depois de observar e registrar por escrito as aulas da dupla de professores voluntários do Departamento de Informática, o sétimo passo de implementação da Clínica da Atividade Docente na UTFPR-PB foi o de auxílio a esses profissionais na análise e problematização de suas aulas observadas e anotadas. Para maiores detalhes sobre os procedimentos de execução desse trabalho, clique aqui.

Como venho enfatizando em diferentes posts do Blog, muito dificilmente um professor fica indiferente a si mesmo, a seus alunos e a seu trabalho quando é observado nas condições propostas pela perspectiva da Clínica da Atividade Docente. O que de fato ocorreu com a dupla de professores de informática foi que, ao serem observados e verem suas aulas sendo registradas por escrito, eles – como especialistas em suas próprias atividades – se observaram criticamente a si mesmos. Como as aulas em questão ocorreram no Laboratório de Informática da instituição, no qual os trabalhos de ensino-aprendizagem são realizados pelos docentes e discentes por meio do uso sistemático e prolongado do computador, revelaram-se rapidamente as preocupações centrais de ambos os professores: será que os alunos realmente estavam e permaneciam envolvidos com as aulas? Será que de fato acompanhavam e executavam as orientações dos professores sem, por exemplo, se desviarem e se perderem em redes sociais e outros sites do gênero?

Com efeito, nossas observações e anotações revelaram, no caso das aulas de um dos professores da dupla, uma relativa e ligeira “indisciplina” ou “dispersão” dos alunos, a qual se materializava na forma de algo como certa agitação e/ou movimentação discente. No caso das aulas do outro professor da dupla, o que chamou muito a atenção foi o contrário: o fato de esses mesmos alunos parecerem completamente absorvidos e envolvidos com a aula e com as atividades que vinham sendo desenvolvidas.

Essas constatações, feitas pelos próprios professores ao se observarem a si mesmos a partir de nossa presença em sala de aula, serviram para orientar o olhar para essa problemática no oitavo passo de implementação da Clínica da Atividade Docente na UTFPR-PB: o de filmagem propriamente dita das aulas dos docentes. É sobre isso que falarei em meu próximo post. Como ficará claro na sequência dos demais posts, o que se constatou nada tem a ver com “domínio” ou “falta de domínio” de sala pelos professores…

Como se deu o trabalho pedagógico de observação e registro escrito de aulas?

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Após o estabelecimento de uma parceria de trabalho com os alunos para tratamento clínico da atividade docente na UTFPR-PB, o sexto passo de implementação da Clínica da Atividade Docente na instituição foi o de observação e registro escrito de aulas da dupla de professores voluntários.

Para essa finalidade, foi criado um formulário simples, com campos específicos no cabeçalho para preenchimento de informações básicas como nome do professor, curso, disciplina, departamento, turma, data, horário, local ou sala. Além disso, o formulário possui – logo abaixo do cabeçalho – uma tabela com linhas em branco na frente e no verso, divididas em duas colunas: uma bem estreita, à esquerda, intitulada “Tempo”, e outra larga o suficiente para que em suas linhas se possa anotar a descrição/narração do que acontece na aula observada. Por esse motivo, essa coluna é intitulada “Descrição da aula do professor”.

O trabalho foi realizado no período noturno, com agendamento prévio combinado com os professores e seus alunos. A Pedagoga Doutoranda Dalvane Althaus e eu chegamos à sala cerca de cinco minutos antes do início das aulas a serem observadas. O objetivo foi verificar também um pouco do movimento gradual de chegada do professor e dos alunos, bem como de “acolhimento” de uns pelos outros. O objetivo foi também observar e identificar precisamente o modo como a aula é formalmente instaurada (ou iniciada) e levada adiante.

A partir daí, bem cientes de que a neutralidade absoluta é sempre impossível em qualquer trabalho de observação e registro escrito, buscamos anotar em nosso formulário o que se passou nas aulas de cinco em cinco minutos, indicando os minutos na coluna do “Tempo” e a descrição/narração das ações de aula, na coluna da “Descrição da aula do professor”. Nosso esforço foi de evitar registrar as ações de forma avaliativa ou crítica (em termos de “positivo” ou “negativo”, por exemplo), com o objetivo de não nos colocarmos como “especialistas externos” na atividade dos professores.

Em meu próximo post, falarei sobre como se deu nosso trabalho de auxílio aos professores na análise e problematização das aulas que observamos e registramos por escrito.

Como se deu o estabelecimento de uma parceria de trabalho com os alunos?

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Após a formação da primeira dupla de professores para tratamento clínico da atividade docente na UTFPR-PB, o quinto passo na implementação da Clínica da Atividade Docente nessa instituição foi o estabelecimento de uma parceria de trabalho com os alunos das turmas indicadas por esses professores. Eu e a Pedagoga Dalvane Althaus fomos a essas turmas, juntamente com os docentes, no horário das aulas, com a finalidade de lhes apresentar as linhas gerais do trabalho que pretendíamos realizar e os objetivos que tínhamos em vista.

Especialmente por se tratar de alunos de um curso superior, não houve entre eles menores de idade. Se tivesse havido, nos teria sido necessário estabelecer a parceria de trabalho também com seus pais ou responsáveis. Na ocasião da conversa com os discentes, os detalhes e os objetivos de implementação da Clínica da Atividade Docente lhes foram apresentados e eles decidiram por unanimidade que gostariam de participar e apoiar a iniciativa.

Pareceram-nos, na verdade, bastante “empolgados” com a novidade e, com isso, foi muito interessante notar como, a partir daquele momento, se desencadeou em todos eles um processo de auto-observação. De fato, com esta proposta, a introdução de um observador externo na sala de aula ou, até esse estágio do trabalho, a simples ideia de ter esse observador presente em sala de aula levou de imediato os professores e seus alunos a juntos se observarem com os olhos do(s) outro(s)! Isso, inevitavelmente, como pudemos constatar e como relatarei em breve, provocou uma mudança bastante produtiva do comportamento de ensino-aprendizagem em sala de aula.

Em meu próximo post, apresentarei o sexto passo de implementação da Clínica da Atividade Docente na UTFPR-PB: a observação e o registro de aulas por escrito.

Como ocorreu a formação da primeira dupla de professores para tratamento clínico da atividade docente?

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A demanda dos professores na UTFPR-PB foi primeiramente levada bem a sério e sem trapaças. A partir daí, foi constituído um coletivo de trabalho docente com base na estrutura educacional existente no Câmpus Universitário. Em seguida, objetivando partir coletivamente para o enfrentamento da atividade concreta de sala de aula, o quarto passo na implementação da Clínica da Atividade Docente na instituição foi o de formação de duplas de professores voluntários para a filmagem de aulas no interior do coletivo.

A primeira dupla de professores foi formada no Departamento de Informática e todo o trabalho clínico subsequente foi também realizado nesse setor. Isso porque, dentre as chefias de todos os departamentos acadêmicos da instituição – que unanimemente fizeram sua adesão à implementação da Clínica da Atividade Docente – foram dois professores desse Departamento os primeiros a se voluntariar.

Obviamente, esse voluntariado não ocorreu de forma rápida e espontânea. Tendo em vista que os professores – com toda razão – frequentemente desconfiam de observadores externos em suas salas de aula, foi preciso antes apresentar-lhes muito clara e detalhadamente a proposta do trabalho a ser realizado e, além disso, esclarecer cada uma de suas dúvidas. Foi possível perceber que essa desconfiança estava relacionada à ampla experiência negativa que têm com a atitude típica dos “especialistas externos”: na verdade, não se sentem à vontade para ter em suas salas de aula pessoas que venham observá-los com o único objetivo de meramente apontar o que consideram ser seus “erros” para, em seguida, unilateralmente indicar formas nada realistas de “corrigi-los”, especialmente se isso for feito por meio de filmagens!

A principal dúvida ou insegurança dos professores em relação à participação deles na execução do trabalho se expressa surpreendentemente na seguinte pergunta: como é esse negócio de sermos nós mesmos os especialistas legítimos naquilo que fazemos?! É facil compreender bem essa dúvida ou insegurança se se levar em consideração que os docentes são cotidianamente “bombardeados” pela ideologia da “indústria dos especialistas externos”, segundo a qual – pelo fato de não saberem fazer bem seu trabalho – precisam que experts venham lhes dizer – fora da sala de aula! – em que estão “pecando” e o que devem fazer para se “redimirem” de seus “pecados”.

Uma vez superada a desconfiança, tiradas as dúvidas e eliminadas as inseguranças iniciais, parti com a dupla de professores do Departamento de Informática para o quinto passo na implementação da Clínica da Atividade Docente na UTFPR-PB: o estabelecimento de uma parceria de trabalho com os alunos. Esse será o assunto de meu próximo post.

Tomar providências didático-pedagógicas com o apoio do coletivo de professores e dos gestores educacionais

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Depois de levar os resultados alcançados ao conhecimento dos Gestores Educacionais para viabilizar a tomada de determinadas providências de resolução de problemas que dependam de apoio político-institucional, o décimo quarto e último passo na implementação de uma Clínica da Atividade Docente nas escolas é justamente a efetiva tomada de providências!

É possível que algumas delas digam respeito exclusivamente ao coletivo de professores, pois podem depender, por exemplo, de uma “revisão” de suas práticas de ensino sem que haja a necessidade de melhorias nas condições do trabalho de sala de aula. Sendo esse o caso, os docentes podem atuar juntos, sem depender do apoio direto ou da interferência dos gestores educacionais. Por exemplo, é possível que se tenha percebido que alguns alunos de determinados professores não estejam compreendendo bem certas matérias como resultado da dificuldade desses professores em explicar alguns conteúdos de maneiras variadas e, de alguma forma, numa linguagem mais acessível para os estudantes. Uma vez detectado o problema pelo coletivo de professores, esse mesmo coletivo se encarrega de orientar os colegas docentes que estejam enfrentando essas dificuldades ao compartilhar com eles práticas já testadas e confirmadas no grupo como “bem-sucedidas”. A partir daí, os docentes em dificuldade passam a experimentar essas práticas na tentativa de resolver o problema, contando para isso com o apoio e acompanhamento contínuo do coletivo.

Mas também é possível (e talvez mais provável!) que as providências a serem tomadas digam respeito a condições precárias de trabalho em sala de aula. Por exemplo: iluminação insuficiente, calor ou frio excessivo, carteiras, mesas e/ou cadeiras em quantidade insuficiente ou quebradas, instalações elétricas disfuncionais, infiltrações, salas superlotadas, falta de equipamentos necessários ou inadequação de equipamentos disponíveis. Nesses casos e em tantos outros de caráter semelhante, é preciso que haja o envolvimento e a atuação dos gestores educacionais em parceria direta com o coletivo de professores.

Este é o último de uma sequência de posts que tinham por objetivo apresentar os procedimentos básicos de implementação da Clínica da Atividade Docente como forma de promoção da formação continuada e da saúde do professor nas escolas. Os próximos posts serão dedicados a apresentar detalhadamente e analisar uma experiência bem-sucedida de implementação dessa proposta em uma instituição pública de educação superior. Continue acompanhando o Blog! Se você é novo por aqui, convido-o a ler também os posts anteriores, comentando-os ao final da leitura. Até a próxima!

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